A menina de pele preta e olhos curiosos quase que se camuflava naquela escuridão imensa do seu quarto. Tinha noite e madrugada. Tinha cobertor e cama. Só faltava o sono. O sono era como o goleiro do time: essencial. E como todo goleiro tem um reserva, o do sono, por sua vez, era a imaginação. Que aliás, o daquela menina era bastante aguçada.
Devia ser por volta de umas 3 da manhã de um outono misturado com verão. Ela, deitada na cama apenas com os olhos descobertos. Tinha o corpo inteiro coberto, mas era por mais medo do escuro do que pelo frio, em si.
Virava pra cá e virava pra lá, esperando o sono que já estava atrasado. Ela virou pro lado e bateu o olho naquela porta do armário. Que coisa mais maluca. Foi ali mesmo que a imaginação daquela preta se acumulou naquela madrugada.
Com um pouco de medo ela queria saber o que podia ter ali dentro. Quantos bichos? Quantos monstros? Quais super-heróis? Quantas pessoas a olhando?
E o que ela viu foi um moço, bonito. Com a aparência de um anjo. E ao envés de medo, o que a menina sentiu foi paz. Uma paz grande e boa. Como se o moço além de olhar pra ela, olhasse por ela. Ela percebeu que não era só imaginação, mas também não queria sair da sua cama para poder tocá-lo. O que ela queria é ficar ali, sentindo aquela paz até pegar no sono...ou o sono pega-la.
E toda noite a preta deixava um pouquinho da mesma porta do guarda-roupas aberta e a olhava fixamente esperando o moço a olhar dormir e trazer aquela paz boa. E ele trazia.
Ela nunca soube muito bem quem era ele, e na verdade, nunca procurou saber. Ele estando lá, bastava. E esteve durante muito tempo. Ele e sua paz.
Lindo!
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